TEMPOS DIFÍCEIS
- Texto de José Maria Mendes
A realidade de hoje, consubstanciada numa crise económica e social de
invulgar profundidade, propicia uma análise prática, digamos uma
constatação real das críticas dos opositores ao regime capitalista
selvagem que, indiscutivelmente, está na origem deste caos. Um
capitalismo que tão depressa apresenta uma conjuntura de grande
opulência como, de seguida, sem que nada o faça prever, se submerge num
pantanal, se desmorona como se de um simples baralho de cartas se
tratasse.
Foi assim em 1929,
quando a um período de grande desenvolvimento sucedeu uma depressão que
abalou o mundo. Cerca de oitenta anos depois, o ciclo renova-se. A
partir do momento em que os americanos se confrontaram com a
impossibilidade de cumprir os compromissos assumidos na aquisição das
suas casas, fortemente facilitada pela concessão selvagem de crédito
pelos bancos, numa procura desmesurada de lucros a qualquer preço, o
caminho encontrava-se aberto à degradação económica.
Que razões
estruturais podem, de alguma forma, ajudar a compreender este fenómeno?
Logo na sua infância,
o grande capital estabeleceu uma ortodoxia própria, baseada simplesmente
no lucro, colocando de parte, com raras excepções, qualquer preocupação
social. Escolheu a via de uma intensa concentração de modo a controlar
os custos da produção. Desse jeito, surgiram os poderosos grupos de
empresas conseguidos, particularmente, através de fusões ou da formação
de carteis, os quais criaram os grandes monopólios que repartiram entre
si os mercados mundiais, dando origem a um novo colonialismo, a uma
diferente figura de totalitarismo. Na sequência, foi imposta aos países
mais pobres uma produção completamente alheia aos interesses das
populações locais, asfixiando os seus métodos tradicionais que, embora
menos desenvolvidos, contribuiriam, por certo, em grande escala, para o
amenizar dos seus problemas. O resultado foi o que se viu!
O sociólogo francês
Jean Baudrillard faz uma interpretação real do mundo contemporâneo que
gira em torno de uma sociedade de consumo organizada não a partir da
produção mas antes a partir do consumo, uma espécie de sociedade do
desperdício. Nesta sociedade, permanentemente aliciada para o consumo
fácil, o crédito desempenha um papel essencial, um crédito que conduz ao
endividamento das famílias para além das suas reais possibilidades, por
vezes sem disso se aperceberem, adquirindo o que não querem em
detrimento do que precisam.
O poder económico que, na realidade, concentra em si também o poder
político e social, conseguiu até, como observa Boaventura de Sousa
Santos, a industrialização da ciência, passando a deter o principal
papel na definição das suas prioridades.
Aqui, têm muitas Universidades uma boa quota parte de responsabilidade
pelo incentivo dado aos cursos que melhor se integram na estrutura
capitalista. A deslocalização das indústrias, outro fenómeno recorrente
dos nossos dias, insere-se no mesmo contexto. No momento em que o lucro
se esvazia, busca-se uma localização mais favorável, geralmente num país
periférico, sem regras laborais e, por conseguinte, mais propício à
exploração de uma mão de obra a quem, por norma, são atribuídos salários
de sobrevivência ou menos do que isso.
O grande problema é que este capitalismo se mostrou incapaz de sustentar
um sistema financeiro corroído pela obsessão do lucro e por um conjunto
de falsários de que Madoff é o líder paradigmático. Daí a conturbação
que atinge toda a humanidade, a angústia que acomete, diariamente,
milhões de seres que, de um momento para o outro, vêem a suas vidas
feitas em nada.
|
|
|